Pouco depois da surpreendente eleição de Robert Francis Prevost — agora Leão XIV — para o papado, na quinta‑feira passada (8), antigas fotografias ressurgiram nas redes sociais e passaram a viralizar. Os registros mostram o então bispo agostiniano durante uma passagem discreta por Belo Horizonte, em 2004, quando participou de atividades pastorais extraoficiais em Minas Gerais. Nas imagens, Prevost surge descontraído: sorriso largo, calça preta e camisa social azul; numa das fotos, ergue uma taça de cerveja enquanto conversa com religiosos locais e leigos engajados. O gesto, simples e amistoso, acabou despertando curiosidade e comentários bem‑humorados, sobretudo entre fiéis que se acostumaram a uma imagem mais sóbria dos papas.
À época, a visita não constava de agenda pública. Prevost fora convidado por um grupo de padres mineiros que trabalhava em projetos sociais nas periferias da capital e o acolheu em pequenos encontros, celebrações e visitas a comunidades carentes. Segundo testemunhas, ele se mostrara interessado em vivenciar de perto a realidade brasileira — marcada pela desigualdade, mas também pela criatividade pastoral de base — e fizera questão de compartilhar momentos informais com os anfitriões, entre eles um almoço em que a famosa cerveja artesanal local foi servida.
A redescoberta dessas fotos ganhou força porque ajuda a compor um retrato mais humano do recém‑eleito pontífice. Nascido em Chicago, em 1955, Robert Francis Prevost ingressou jovem na Ordem de Santo Agostinho, foi missionário no Peru por quase vinte anos e, posteriormente, exerceu funções de governo em Roma. Ao longo da carreira, consolidou reputação de pastor próximo das pessoas simples, atento às questões sociais e pouco afeito a protocolos excessivamente formais. Durante o conclave, seu nome não figurava na lista de “papáveis” favoritos, razão pela qual sua escolha causou amplo espanto dentro e fora do Vaticano.

No primeiro discurso após a eleição, Leão XIV prestou homenagem a seu antecessor, o Papa Francisco, agradecendo‑lhe pelo “testemunho de uma Igreja que sai de si para encontrar os descartados”. Esse alinhamento ideológico se confirma ao revisitar antigas publicações de Prevost na rede social X (antigo Twitter). Antes de ser criado cardeal, ele usava o perfil para denunciar injustiças, comentar conflitos esquecidos e, em especial, criticar políticas migratórias que julgava desumanas.
Um caso emblemático que ele destacou foi o de Kilmar Abrego Garcia, salvadorenho que viveu catorze anos nos Estados Unidos, sustentando três filhos com deficiência. Kilmar foi deportado sob acusação de pertencer à gangue MS‑13 — algo que sempre negou e pelo qual nunca houve condenação formal. Mesmo depois de a Suprema Corte autorizar seu retorno, o processo emperrou em disputas diplomáticas entre Washington e San Salvador. Indignado, Prevost publicou mensagens cobrando sensibilidade dos governantes. Num tuíte, questionou como líderes cristãos podiam permanecer indiferentes ao sofrimento de famílias “feridas pela dureza das leis”.

Esse histórico de defesa dos migrantes soma‑se à preocupação com a pobreza observada em suas viagens pelo Sul Global — incluindo aquela temporada informal em Belo Horizonte. Analistas vaticanos sugerem que, como Papa, ele deve continuar a enfatizar a dignidade dos deslocados, insistir num acolhimento generoso e estimular iniciativas de integração social. Ao mesmo tempo, acredita‑se que Leão XIV procurará manter o diálogo com setores mais tradicionais, equilibrando continuidade e renovação.
Assim, as fotos de 2004 não apenas humanizam o novo pontífice, mas ecoam um traço central de seu ministério: a disposição de estar próximo do povo, partilhar alegrias simples — até uma cerveja mineira — e ouvir as histórias que brotam nas periferias do mundo. Essa proximidade, agora estendida à cátedra de Pedro, promete marcar o estilo pastoral de Leão XIV e reacender debates sobre o papel social da Igreja em um cenário global cada vez mais marcado por migrações, desigualdades e polarizações.
