A popularidade crescente dos bebês reborn — bonecas hiper-realistas que reproduzem com assombrosa fidelidade cada traço de um recém‑nascido — inaugurou um debate acalorado nas redes sociais sobre até onde vai o limite entre afeto legítimo e fuga da realidade. Embora muitos adquiram esses itens como recurso terapêutico, expressão artística ou objeto de coleção, parte dos entusiastas passou a tratá‑los como filhos de verdade, atitude que desperta reações intensas em diferentes setores da sociedade.

A polêmica ganhou novo fôlego quando a sensitiva Chaline Grazik, conhecida por suas previsões espirituais e atualmente grávida do terceiro filho, divulgou um vídeo contundente sobre os supostos riscos dessa prática. Na gravação, Chaline descreve uma “visão espiritual” em que o vínculo emocional com as bonecas ultrapassa o campo psicológico e toca dimensões éticas e metafísicas delicadas. Segundo ela, quando sentimentos maternais são direcionados a um objeto inanimado, cria‑se uma brecha energética capaz de atrair entidades de natureza sombria ao ambiente doméstico. Para seus seguidores, a advertência soou como alarme; para críticos, soou como superstição.

Além do alerta espiritual, Chaline aponta possíveis implicações emocionais. Ela interpreta o apego aos reborns como um sintoma de “lacuna afetiva profunda”. De acordo com sua análise, a pessoa que substitui vínculos humanos por bonecas hiper-realistas pode estar tentando preencher um vazio gerado por solidão, luto ou traumas mal resolvidos. Sem a mediação de cuidado clínico, argumenta, esse deslocamento afetivo tenderia a agravar sentimentos de isolamento, transformando a fantasia de acolhimento em dependência psíquica. “Há risco de adoecimento mental quando o objeto, ainda que fofo, se torna escudo contra o mundo real”, resume a vidente.
O posicionamento divide opiniões. Profissionais de saúde mental, embora reconheçam o valor terapêutico de brinquedos que evocam cuidado, também sinalizam limites. Psicólogas como Katia Sanches observam que o reborn pode funcionar como ferramenta valiosa em processos de luto perinatal ou na preparação para a adoção, desde que usado sob orientação profissional e por tempo determinado. “O problema surge quando o boneco deixa de ser instrumento e se torna substituto permanente de vínculos humanos”, explica. Já psiquiatras alertam para a possibilidade de dependência comportamental: a pessoa pode evitar situações sociais reais, preferindo a companhia de um simulacro que não impõe frustrações.
Especialistas em espiritualidade adotam posturas diversas. Enquanto teólogos cristãos mais conservadores veem nos reborns um simples objeto que se torna idolatrado de forma preocupante, representantes de linhas místicas menos ortodoxas relativizam a ideia de “portais energéticos”, defendendo que intenção e discernimento da pessoa são determinantes. Para eles, qualquer objeto — de um talismã a um retrato — pode servir de canal simbólico, positivo ou negativo, conforme o uso.
O debate, portanto, revela quão tênue é a fronteira entre conforto emocional e alienação. Em tempos de atenção crescente ao bem‑estar psíquico, práticas como a adoção simbólica de bonecas realistas exigem olhar sensível que considere tanto o contexto clínico quanto o universo de crenças do indivíduo. O desafio está em equilibrar fantasia e vida concreta: acolher a necessidade de afeto sem perder de vista que relações verdadeiramente nutritivas continuam a acontecer fora do berço de silicone, no encontro imperfeito — porém insubstituível — entre seres humanos.
