Os assessores mais próximos de Jair Bolsonaro demonstravam abertamente o desconforto com a postura de Michelle Bolsonaro, então primeira-dama, no Palácio da Alvorada. A residência oficial da presidência da República foi palco de diversos episódios em que Michelle mostrou exercer controle rígido sobre os espaços e costumes do local. Segundo o próprio Bolsonaro, o incômodo partia do fato de a esposa “botar ordem na casa”, algo que nem sempre era bem aceito por todos ao redor.
Esse ambiente de tensão ficou evidente em conversas trocadas entre o tenente-coronel Mauro Cid e o coronel Marcelo Câmara, dois assessores muito próximos de Bolsonaro. Em entrevistas, o ex-presidente comentou que o comportamento firme de Michelle gerava mal-estar entre aliados. Ele explicou que o Alvorada, além de servir como moradia da família presidencial, também era palco de diversas reuniões. Michelle, segundo ele, gostava de impor certa disciplina nessas ocasiões. Se os encontros se prolongavam até altas horas e as pessoas falavam muito alto, ela se irritava e tomava providências.
Bolsonaro relatou ainda que Michelle prezava pela organização do ambiente doméstico. Fazia questão de manter o segundo andar, onde moravam, como espaço estritamente reservado à família. Isso implicava restrições ao trânsito livre de assessores por essa área. Ele mencionou também a preocupação de Michelle com a filha mais nova, Laura, que tinha apenas oito anos na época em que o casal chegou à presidência. Michelle evitava que os assessores utilizassem a piscina da residência, sobretudo quando Laura estava por ali de roupa de banho, o que causava certo incômodo entre os funcionários. No entanto, Bolsonaro garantiu que Michelle nunca se envolveu nas questões políticas ou em decisões administrativas do governo.
Nos bastidores, a relação com a primeira-dama também era marcada por atritos. Em mensagens vazadas, o coronel Marcelo Câmara se referia a Michelle com ironia, chamando-a de “tua amiga”, enquanto Mauro Cid reagia com risos. A maneira como ela gerenciava o cotidiano do Palácio da Alvorada, ao que tudo indica, não agradava a todos.
Michelle também reagia sempre que sabia que estavam falando dela. Após uma reportagem de Rodrigo Rangel, do portal Metrópoles, apontar que assessores faziam críticas às suas costas, Michelle procurou Mauro Cid para cobrar explicações. Ela escreveu: “Agiu rápido”, em tom de cobrança. Cid, no entanto, optou por não responder.
O ambiente ficou ainda mais delicado quando Mauro Cid, em delação premiada, acusou Michelle de ter tentado incitar Bolsonaro a dar um golpe de Estado. Michelle se manifestou rapidamente e negou categoricamente a acusação, classificando-a como uma invenção.
Esses episódios revelam como a convivência no Palácio da Alvorada era permeada por tensões e conflitos, especialmente envolvendo a figura de Michelle. Enquanto ela tentava preservar a privacidade da família e manter a ordem no ambiente, parte dos assessores via seu comportamento com reservas. Ainda assim, Michelle nunca deixou de se posicionar para defender sua imagem e seus valores.
